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segunda-feira, 4 de março de 2019

Quimbanda audiobook parte 13











Exu no Plano Astral

Os Exus e Pombagiras são energias conscientes que residem no plano “Astral”. Esse plano habitado por espíritos é livre dos conceitos de Tempo/Espaço. É um plano denso, pois os espíritos também necessitam de um “corpo” muito similar ao invólucro material. Uma das grandes diferenças entre o plano físico e o astral é a densidade da vibração, ou seja, no plano físico temos espaços definidos (metros, quilômetros), assim como o tempo é medido em minutos, horas, dias e anos. No Plano Astral as distâncias são cortadas apenas com a densidade que o corpo astral projeta através do pensamento e o tempo possui inúmeras entradas lineares, ou seja, o espírito pode viajar pelo passado, presente e futuro na velocidade de sua vibração. Segundo a “Teosofia”, o plano astral reflete-se como um plano de desejos e as atividades motivadas pela vibração advinda dos pensamentos são muito intensas.
Como existe uma grande liberdade de formas no plano astral, seres com controle do fluxo energético consegue plasmar formas variadas. Grandes armadilhas podem ocorrer aos espíritos que não souberem reconhecer a ilusão advinda de tais formas. Por conseguinte, os espíritos que tiverem seus “mentais” libertos são forças extremamente perigosas.
O mundo astral é repleto de planos e subplanos. Não existe um número que possa traduzir o tamanho desse "Oceano", porém, algumas correntes alegam que, apesar de não ser possível medir a extensão, podemos subdividir o astral em sete planos numa escala de materialidade.
0 1°, 2° e 3° plano astral são os mais afastados da Terra física (material). Esses são parte do plano de controle do Falso Deus e, de forma ilusória, representam os estágios supostos “Céus”, “Paraísos" ou ainda a “Terra do Sol”. Os estudiosos alegam que são em tais estágios que os espíritos gozam de boa aventurança. Pelas correntes espiritualistas esses três planos são chamados “la classe”. O 4o e 5o plano já não são tão empíricos, pois são planos onde as consciências ainda se relacionam com poucos aspectos materiais. O 6° plano é o físico e material e o 7° é chamado de "inframundo” ou ainda “Plano Infernal”.
Plano Infernal
Segundo tais linhas de raciocínio, quanto mais próximos ao plano material, mais densa (e menos “divina") se torna a energia. Dito é ainda que o 7° plano é desprovido de luz solar, portanto, é um plano escuro ou “Reino da Noite”, chamado por alguns de “Umbral”, “Sheol” (hebreus) ou “Kamaloka” (hindus). Os seguidores dessas correntes espiritualistas alegam que os espíritos que residem nos planos mais densos são ignorantes e suas consciências estão presas à matéria, ou seja, não se desligaram completamente de suas vidas na Terra. É o lar de suicidas, cadáveres astrais, criaturas monstruosas e zoomórficas, mortos vulgares, sombras obscuras e os feiticeiros (as), magos negros e seus discípulos.
A Quimbanda Brasileira também enxerga em partes essa divisão, todavia, entendemos que o sétimo plano é o local onde se concentrou o 'veneno da Grande Serpente descrito na Gênese da Quimbanda. Esse local foi feito para abrigar as "fagulhas ígneas" e edificar o império dos escolhidos. Dentro desse plano realmente existem as criaturas descritas e repudiadas por outros segmentos religiosos, pois a manutenção de um império necessita de trabalhadores cegos e facilmente manipuláveis que serão usados até o momento em que não servirem mais propósitos de Vossa Majestade. Quando ocorre isso, tais almas são conduzidas através dos portais e resgatadas pelos 'socorristas' astrais vinculados ao siste escravocrata do falso deus. O foco de toda nossa crença reside nos campos energéticos formados pelos feiticeiros (as), magos negros e seus discípulos, chamado por nós de Exus e Pombagiras. Seres de inteligência elevadíssima; alimentados por forças que residem dentro e fora dos planos cósmicos são Reis e Rainhas que construíram impérios conectados e ao mesmo tempo autônomos. Esses impérios recebem o nome de "Os Sete Reinos da Quimbanda”.
É importante salientarmos que o Reino Obscuro não escraviza nenhuma alma. Todas as almas sugadas para esse plano já vivem em estados mentais de completa escravidão. Entretanto, o Reino de Maioral não se destina às pessoas estagnadas, feitas para serem contínuos emissores energéticos e cuja inércia mental o impossibilita de evoluir. O Reino é para os escolhidos e para aqueles que escolhem a libertação através da força de Maioral e de seus guerreiros Exus.
A ilustração demonstra claramente que os sete Reinos Negros astrais possuem entradas nos Reinos do plano físico. Através dessas entradas ocorrem as manifestações do Povo de Exu na vida dos seres humanos. Cada ser humano vibra em uma intensidade que atrai (tanto conscientes quanto inconscientes) a realidade à suas vidas e os espíritos afins. O grau de conexão vibratória entre os adeptos e os Reinos é o que determina a presença e força de ação dos mesmos, ou seja, ao se captar a energia de um Exu, independente de qual “Povo” o mesmo pertencer, sua ação dependerá muito da descarga energética e da reconstrução física (assentamento/ ponto de força) proporcionada pelo adepto iniciado.
Os Reinos ao se manifestarem no plano físico são energizados pelas correntes produzidas em escala superior, ou seja, a força da natureza e de todas as pessoas, conscientes ou não, alimentam tais portais. Dessa forma, a aplicabilidade de ações construtivas, corretivas ou destrutivas e a recondução dos espíritos aos, direito fundamentalmente carecem de um Exu. Para ter acesso a qualquer astral, todas as almas devem passar pelos portais de um dos Reinos de Exu, onda avaliados, julgados e direcionados conforme a densidade energética e a obscuridade mental. Desse procedimento, existem cinco vias que os espíritos podem ser locados:
- Ser conduzido para o plano astral mais sutil com fins de reencarnação posterior;
Espíritos que carregam energias derivadas de formações religiosas sólidas (em correntes da 'Falsa Luz') e que não possuem grandes pendências psicológicas. Esses espíritos emanam energias pacíficas, libertam-se dos enlaces materiais com facilidade e são conduzidos 'como cordeiros domesticados' aos planos astrais mais sutis para comporem novas correntes. São espíritos cegos, cuja essência exemplifica os ‘homens de barro'.
-Ser arrebanhado por “socorristas astrais”;
Ocorre para os espíritos que estão acorrentados aos seus dogmas e conceitos éticos/ morais internos de forma reversível e gradativa. Segundo a doutrina espírita, tais seres serão conduzidos às “Colônias” (cidadelas astrais) de regeneração e recuperação. Os espíritos mais "evoluídos” que atuam em tais espaços astrais são denominados "socorristas” e reequilibram os espíritos preparando-os para uma nova jornada de reencarnação. Quando aptos ao reencarne, são conduzidos à planos mais sutis, tem sua memória ancestral “aprisionada” e recebem sua nova jornada escrava no plano terrestre.
-Ser condenado a vagar entre os mundos em busca de luz e evolução com sua memória material esgotada;
Espíritos repletos de frustrações, traumas e decepções tão agudas que os aprisionam em labirintos psíquicos fortíssimos. Vagam entre os mundos em busca de luz e por vezes não entendem que não estão mais entre os vivos (material). Constantemente em estados apáticos, letárgicos (cadáveres astrais) e submissos, não são objeto de desejo das correntes espirituais mais densas, porém, são usados para determinados fins. Muitas vezes levam anos neste estágio até encontrarem a força interior que os desperte ou sejam conduzidos a um portal para buscarem apoio dos espíritos encaminhadores (socorristas).
-Ser escravizado como medida punitiva;
Espíritos repletos de falhas graves, que ao longo da vida material jamais buscaram respostas para o autoconhecimento e nunca observaram o lado espiritual apenas deleitaram-se com vícios mundanos e sentimentos apaixonados. Tais espíritos cegos, conscientes ou não, tonaram-se um estorvo para a evolução dos que cercavam através de suas atitudes obsessivas, ações violentas e insanas motivadas exclusivamente pelas “paixões". Quando desencarna é capturado e passa ser escravo algum Ser desagregador. Esse espírito pode, depois de muito sofrer e aprender, encaminhado para uma legião de Exu ou ser encaminhado para um plano socorrista” (quando não serve para as colunas do “Povo da Noite”), todavia, tais seres costumam permanecer no estado de escravo por muitos anos.
Ser arrebanhado pelas sendas de Exu, aprender manipular as forças do plano astral (através de magia e feitiçaria) e burlar a Lei de Reencarnação, tida como um das Leis Naturais de Evolução.
Como dito em outros textos, “Exu” (“catiço") é um título, uma honraria recebida por alguns espíritos. A senda de um Exu não é fácil, afinal, para fazer parte de uma Legião, o espírito deve superar alguns aspectos pessoais, absorver o conceito “Povo", deixar de lado certos traços humanizados e ser um agente de grandes mudanças. Esse título não tem nenhuma relação com a opção religiosa que a alma tinha antes de padecer na matéria, afinal, não existe “Exu Pagão e Exu Cristão”. Todos os seres um dia fizeram parte de religiões antigas ao longo do ciclo reencarnatório, portanto, foram pagãos e alguns, arrebanhados há menos tempo, compunham os bancos de Igrejas Católicas, Protestantes e Mesquitas. A chama que o espírito carrega não é medida pela religiosidade na última encarnação e sim pelos impulsos emitidos ao longo e pós a vida na matéria.
Esses impulsos é que diferenciam a densidade dos seres e a senda espiritual ao qual deve fazer parte. Portanto, o Exu que se manifesta na Quimbanda diferencia-se dos espíritos que vem na Umbanda pela densidade que emite, pela forma com que aplica suas cargas, pelo grau magístico que ostenta, pela pluralidade de fontes energéticas, pelo posicionamento diante Leis e condutas e principalmente a ação dentro dos embates de polaridade. Apesar de ostentarem o mesmo título “Exu” não significa que sejam iguais ou sequer parecidos. Exu é apenas um nome, uma forma de reconhecimento, usada tanto por um lado quanto pelo outro.
Exus mais densos costumam ser qualificados como espíritos atrasados, por vezes até de “Kiumbas” (termo erradíssimo), porém, só qualifica dessa forma pessoas que desconhecem que o título de “Exu” não é dado para seres despreparados. Apesar do arquétipo ser mais agressivo, espíritos densos são poderosos mestres e acaçapam sua Sabedoria para que não sejam distorcidas pelos semelhantes. Os seres humanos não são iguais energeticamente, portanto, os mentores espirituais também não o são. Evoluir não significa abandonar os planos escuros e densos, afinal, a luz desperta individualmente e internamente. Existem Exus que são mensageiros e outros a própria mensagem...
Os seres obscuros vivem a plenitude de suas existências dentro de seus próprios abismos e são profundos conhecedores do astral. Plasmam-se da maneira que desejarem e atuam em conformidade com sua carga energética. Esotericamente, entendemos que tais seres alcançaram o topo de suas “alquimias negras”, ou seja, obscureceram suas jornadas e romperam seus dogmas de tal forma que se encontram libertos de todos os vícios mundanos.
A “Alquimia Negra” é o processo de obscurecimento da alma para a ressurreição da luz verdadeira que se encontra encarcerada nos abismos internos. Os Exus, através da compreensão plena, escurecem seus Egos, despertam internamente, aniquilam os efeitos das emoções, elevam-se intelectualmente, aprendem dominar-se mentalmente e são elevados através da realização divina em despertar o fogo interno outrora aprisionado. Com essas faculdades despertas, trabalham e guerreiam para que os homens tenham um desenvolvimento pessoal amplo e possam “rasgar à venda” que os impede de enxergar a verdade e evoluir espiritualmente.
O Exus também são responsáveis em manter abertas as passagens entre o mundo material e o mundo astral, portanto, além de exercerem a guarda dessas "entradas e saídas”, são mensageiros do conhecimento oculto (gnose) que receberam e recebem continuamente. Esse aprendizado evolutivo contínuo que transforma um espírito cerceado em um glorioso “Arauto da Escuridão Viva”.




Quimbanda audiobook parte 12









O Processo de Reencarnação na formação dos Povos de Exu

Para compreendermos a presença e a função de “Exu” na vida dos seres humanos alguns conceitos são deveras importantes.
Os seres que compõem as linhas e povos de Exu são espíritos, pois possuem todas as faculdades mentais e vivem em outro estágio da forma corpórea, todavia, já "habitaram” matérias densas (corpos) e por inúmeras vezes foram parte da história material na Terra. Esse processo de vida e morte (física) denomina-se reencarnação.
O processo de reencarnação (também chamada de transmigração ou metempsicose) é um assunto deveras complexo, pois nem todos concordam com os mesmos parâmetros, porém, a Quimbanda Brasileira enxerga a reencarnação de uma forma completamente diversa da grande maioria das correntes espiritualistas. Partimos do Resumidamente, “Carma” significa um grupo de ações que gera um determinado resultado, ou seja, trata-se da visão espiritual da Lei da Física de "Ação e Reação". Neste ponto, mister se faz o entendimento da influência moral, pois segundo a “Lei Carmática”, se o homem praticar o mal o receberá sob mesma intensidade e se praticar o bem recebe-o da mesma forma. Portanto, os conceitos de bem ou mal são relativos e condicionados à cultura, costumes e ética de cada povo, bem como à religiosidade.
O Livro Sagrado Tibetano "Bardo Thodol”, popularmente conhecido como "Livro dos Mortos” expressa que aqueles que acumulam muito "carma” negativo ver-se-ão completamente aterrorizados por demônios carnívoros (rakshas) ao passo que os que acumularem “bons Carmas” experimentarão as delícias e prazeres inenarráveis. Isso será competência de “Yama Raja ou Dharma Raja", o Juiz dos Mortos, que examinará os atos passados das pessoas com a ajuda de seu "Espelho Narrador". Em seguida, segundo seus méritos ou suas faltas, o indivíduo será encaminhado para um dos seis reinos (Lokas) para renascer ou em casos de plena "iluminação” as portas do “Útero da Vida” serão fechadas impedindo a reencarnação. No hinduísmo esse processo se chama "moksha” (a Salvação de Samsara).
O conceito Tibetano assemelha-se em alguns aspectos ao Orfismo Grego (séc. VI a.C.) que pregava sobre a imortalidade da alma que, ao reencarnar, era dividida e aprisionada no corpo físico. Segundo os atos de seus adeptos a alma ia para um suposto paraíso (Elísio) ou para uma modalidade de inferno.
O “Carma” gera nos homens o efeito “Samsara" que nada mais é do que o contínuo renascimento da alma pós-morte física seguindo a linha temporal cósmica. Talvez essa visão cíclica tenha vindo após a observação dos povos antigos acerca da linearidade que após séculos foi exaltada pelas religiões monoteístas. Existe divergência com relação ao posicionamento físico e temporal dessa transmigração, todavia, certo que necessariamente ocorrem em “Universos Cósmicos”. O sistema cármico é tão complexo que uma simples insatisfação pode resultar em longos anos numa próxima reencarnação. Mas, antes de reencarnar, o ser cósmico terá todas as suas lembranças apagadas para receber um novo invólucro material. Segundo a "Doutrina Espírita Kardecista”, o ser humano ao desencarnar não pode permanecer com as memórias de vidas passadas sob pena de viverem supostas prisões ou mesmo a ira diante a situação atual. Exemplos como o remorso de antigos crimes e atitudes cometidas, a continuidade de desafetos, situação financeira, intelectual ou física pior do que na vida anterior, a retomada dos possíveis vícios vivenciados, o apego aos laços familiares, enfim, a reencarnação garante o bom funcionamento do sistema evitando “embates” sequenciais que enfraqueceriam a emissão energética e o contínuo estado hipnótico, afinal, o descontentamento pode existir, porém, a proliferação de ideias libertadoras torna-se um problema dentro do escravismo.
A revolta contra o Criador e o sono hipnótico faria com que os seres humanos se afastassem das correntes religiosas e, muito possivelmente, se tornassem seres agnósticos ou ateus desprovidos de dogmas e ética religiosa.
Na mitologia grega, as águas do rio "Lethe” ao serem sorvidas pelas almas apagavam todas as lembranças e insatisfações, mantendo-as no estado hipnótico de melancolia até o momento de reencarnarem. Isso demonstra que o "homem de barro” hipnotizado e alienado deve continuar nesse estado letárgico sem direito à ascensão e libertação espiritual consciente.
Todo dogma (ponto religioso indiscutível) ou rígida conduta ética causa no homem uma estagnação, pois não existe horizonte a ser desvendado. Um exemplo clássico de aprisionamento é descrito nos ditames bíblicos no livro de Êxodo. Os “10 Mandamentos" são um conjunto de regras usadas para cercear, manipular e conduzir o povo. Se o homem, cuja personalidade está enraizada em tais “Leis” cobiçar uma linda mulher comprometida será punido pela sua própria consciência e, se esse sentimento tomar rumos condenatórios, certamente estará criando um novo “Carma” para si. Qualquer situação que fugir ao código bíblico faz com que o homem “aprisionado” se perca nas sendas e torne-se “alvo” para punições e temores. Esse homem fiel é um ser manipulável, um "gado” que vagueia nos lindos campos cercados e só tem direito de procriar e trabalhar para subsistir.
Nem sempre libertar um escravo é simples, pois milênios de escravidão suprimem a liberdade de tal forma que o espírito reencarnado acredita que a conduta religiosa está correta e justa e que nada mais serve como parâmetro na busca pelo Divino. Certamente esse homem será vítima dessa cegueira e vagará melancolicamente no pós morte aguardando uma nova oportunidade de estar na matéria. A escravidão faz parte da construção do mundo material, assim como o sono profundo (motivado por inúmeras fontes) impede o esclarecimento acerca de tais prisões. Esse é o principal foco que os “Povos de Exu” combatem; a inércia e o aprisionamento dos seres humanos.
Como já descrito em outros textos, os espíritos que receberam o título de “Exu ou Pombagira” foram arrebanhados pelos Reis e Rainhas das Sagradas Sete Legiões em algum momento de transição no processo pós-morte. Foram instruídos e treinados nas mais variadas artes mágicas, receberam a abertura de toda memória ancestral e conseguiram burlar os vórtices da reencarnação.

domingo, 3 de março de 2019

Quimbanda audiobook parte 11











A Hierarquia de Exu

Os antigos livros que relatavam a hierarquia de Exu, sob nosso ponto de vista, são contaminados pela mentalidade "diabólica crista" dos escritores umbandistas que correlacionavam os “Exus-Egúns” com demônios descritos nos “Grimórios Inquisitores”. O tempo passou, mas o conceito continua contaminado, afinal, escritores mais modernos, mesmo tendo acesso a uma gama muito maior de material para estudo, alegam que os Exus são os mensageiros desses demônios e que possuem livre acesso pelos domínios dos mesmos.
A Quimbanda Brasileira tem verdadeira quizila de tais escritores pelo retrocesso espiritual que impingiram na sociedade mundial. O erro está tão entranhado que dificilmente será revertido, porém, nossa gnose nos permite lutar contra esse absurdo através da palavra que liberta os homens: A Sabedoria!
Demônios são inteligências que não possuíram existência encarcerada nos invólucros materiais. Não são “presos” na rede de reencarnações e na sua grande maioria, são grandes espíritos demonizados pelas igrejas ao longo do processo de conquista territorial, afinal, um Deus vencido na guerra torna-se o culpado por todo sofrimento de seu povo e, posteriormente, ocupa lugar nas trevas destinadas aos demônios.
Entendendo esse conceito, fica difícil correlacionar espíritos humanos que se elevaram nas correntes de Exu e Demônios. Algumas características podem até ser similares, porque antes dos Exus serem demonizados, erroneamente existiu a classificação dos Demônios por atributos materiais e esotéricos. Percebemos que o contato com os demônios pode ocorrer nos planos astrais e, dependendo do grau evolutivo que o espírito esteja, advém um aprendizado muito valioso. A Quimbanda Brasileira crê que antigos deuses obscurecidos capacitam os Exus suportarem o acúmulo de matéria mental negativa e usarem essas energias para a ascensão de seus domínios e poderes.
Antes de adentrar na hierarquia de Exu, devemos compreender a formação e o funcionamento dos sete primeiros “Tronos" passivos e ativos. Antes de tudo, vale ressaltar que os Sete Reinos da Quimbanda foram compostos após a formação do mundo material como figura de embate ao cíclico sistema cósmico de reencarnação e escravismo das almas ígneas. “Maioral” é um Ser criado a partir de um grande esforço feito pelos regentes supremos dos quatro elementos que rasgaram e separaram suas próprias essências para então reuni-las sob a forma de um Grande Imperador.
A função primordial de sua existência é proporcionar o desequilíbrio no frágil ordenamento através da escalada espiritual dos espíritos obscuros dentro dos espaços astrais denominados “Sete Reinos da Quimbanda”.
Muitos espíritos já se manifestaram nas correntes espiritualistas com o nome de Maioral, entretanto, todos esses espíritos são parte de um engendrado sistema ilusório imposto para fazer o "Sagrado Nome” ser desacreditado e escarnecido pelos que buscavam forças dentro do culto aos espíritos da noite. Essa estratégia de contenção fez com que a verdadeira essência de Maioral fosse esquecida e que a Quimbanda se transformasse em uma religião marginalizada.
Uma informação muito importante a todos os adeptos é que Maioral jamais saiu de seu Trono! Os que alegam incorporá-lo ou são charlatões ou são esquizofrénicos alimentados por grupos de analfabetos espirituais.
Como Maioral possui as duas polaridades dentro de sua composição (dinâmica e receptiva), após um longo tempo de preparo, desdobrou-se como em um processo de meiose- formando os sete primeiros “Tronos” da Quimbanda. Esses sete primeiros seres são chamados de “Grandes Reis”. Esses, desdobram-se formando suas consortes: As sete "Grandes Rainhas”.
Grande Rei e Rainha das Encruzilhadas; Grande Rei e Rainha do Cruzeiro; Grande Rei e Rainha das Almas; Grande Rei e Rainha da Kalunga; Grande Rei e Rainha das Matas; Grande Rei e Rainha da Lira; Grande Rei e Rainha das Praias.
Através dos incessantes impulsos construtivos e destrutivos provindos da consciência do Imperador Maioral, esses casais foram formando e modelando os Reinos e Sub-Reinos da Quimbanda. Estabeleceram novos "Tronos” subalternos e iniciaram a busca pelos espíritos que iriam compor essa armada. Dentro do próprio campo astral, foram selecionados espíritos que possuíam a chama negra, chamada de “Luz Luciférica”, para serem os pilares dessa expressão religiosa fragmentada. Esses espíritos receberam toda gnose que compunha os Grandes Reis tornando-se "Poderosos Mortos”.
Os "Grandes Reis e Rainhas” nomearam os "Poderosos Mortos” para regerem, evoluírem e prepararem uma “nova religião” que se infiltraria dentro de todas as vertentes afro que estavam em formação no território brasileiro. A Quimbanda, não é apenas a corrupção gráfica da palavra “Kimbanda”, derivada do dialeto
Quimbundo ou a decomposição de outra religião, a Quimbanda foi a “Porta Astral” que as forças de embate encontraram para se infiltrar e exercer seus impulsos visando a libertação das almas encarceradas.
Alguns umbandistas vislumbraram esse abalo espiritual e tentaram relatar em suas obras, todavia, com suas visões limitadas pelos véus da cósmica ignorância, não entenderam a real função dessa corrente libertadora. Um exemplo disso está na obra de um umbandista que usa a alcunha de “Mestre Itaoman" - “Pemba: a Grafia Sagrada dos Orixás” que em um dos seus trechos relata:
"Ergueu-se, assim, dos confins do Reino das Sombras, sob o impulso do ódio de uma das partes e da maldade da outra, do sangue derramado pelos dois lados, uma “Corrente Maléfica”, que atraiu os piores Magos Negros de todas as épocas, formando-se a “Kimbanda", que é o ponto de perversidade das raças martirizadas.”
A Quimbanda não se trata apenas de uma corrente maléfica que elegeu um culto à perversidade como o autor descreveu. O “mal” que habita na Quimbanda é usado como valor positivo, pois entendemos que os valores éticos e morais, estabelecidos ao homem como “boas virtudes” são formas escravistas ante evolutivas, causadoras de distúrbios comportamentais irreparáveis. A maldade, sob nosso entendimento, trata-se de uma expressão de força interior. As religiões estagnadas em códigos e regras "caídas” efetuam uma “lavagem cerebral” e tornam humanos em apáticos corpos desprovidos de essência. A perversidade, do latim “perversitas.atis”, é um impulso selvagem que tende corromper estruturas sólidas. Não se trata de um conceito simplista e sim da faculdade de usar todos os recursos e formas energéticas para alcançar objetivos. A Quimbanda usa dessa perversidade em alguns aspectos, entretanto, os impulsos perversos que tendem a anomalias como a mentira compulsiva, dissimulação, inveja e ao alto índice de narcisismo são arduamente combatidas pelos Mestres da Quimbanda.
Outra visão limitada desse autor é acerca da formação da "Quimbanda”. No plano material, a “Quimbanda” realmente nasceu através dos povos martirizados, entretanto, o "esterco” não foi a perversidade e sim a revolta e o ódio. Dentre essa formação, não foram apenas os povos martirizados que edificaram as colunas de Maioral; espíritos de todas as etnias foram agregados aos Reinos que evoluem incessantemente.
Quando falamos em “Hierarquia de Exu”, falamos sobre gerência, a capacidade de distribuir ordenadamente. Essa graduação demonstra que a organização das fileiras de Maioral objetiva uma otimização do sistema de embate, um máximo aproveitamento da capacidade de cada espírito e o Direito evolutivo aos mesmos.
Portanto, desde que um espírito é conduzido às sendas de Exu, sua essência é lapidada, enriquecida e preenchida com sabedoria e magia. Esse processo não pode ser medido pelo nosso tempo causal, não existe uma medida certa para que os Exus e Pombagiras permaneçam nos degraus evolutivos. Certo é que alguns despertam suas chamas internas com tamanha força que recebem títulos. Essa graduação não faz com que existam Exus Maiores e Exus Menores, pois a Quimbanda Brasileira classifica os espíritos pelo grau evolutivo que os mesmos ostentam. Jamais podemos esquecer que mesmo que existam disputas internas, existe o poder limitador e nada pode ser maior que as emissões energéticas do Grande Dragão Negro.
No começo da jornada evolutiva, os Exus são direcionados aos Reinos e Sub-Reinos donde receberão um árduo processo de decomposição e aprendizado. Quando aptos, passam a ostentar o nome do Reino e servir nas fileiras de algum Exu com grau evolutivo superior. Por exemplo: Se o espírito receber o título de “Exu de Encruzilhada”, será direcionado para a falange/legião cuja energia seja compatível com a essência individualizada. Se a energia compatível for da “Kalunga", o mesmo servirá nas “Encruzilhadas de Kalunga". Dessa forma, a essência formadora do espírito é respeitada e usada dentro das necessidades do Grande Reino.
O Exu, como todos os espíritos em vias evolutivas, pode evoluir absorvendo forças e sabedorias nas correntes energéticas astrais. Isso faz com que seus poderes se tornem mais direcionados e suas características definidas. Nesse ponto, os Exus recebem "nomes” que representam suas legiões. O “Exu de Encruzilhada" pode se tornar "Exu Tranca Rua das Encruzilhadas” ou um “Tiriri das Encruzilhadas” dentre outras classificações.
A evolução é continua e longínqua. Após o Exu ter desempenhado sua função com maestria e força, destacando-se pela busca e despertar, servindo a causa maior com dinamismo e tendo alcançado a plenitude de forças, recebe o título de “Mestre". Em alguns casos, esse título pode ser de “Mestre Sete”. O “Mestre Sete” difere-se do título de “Mestre” pela necessidade expansiva e organizacional do Reino. Os “Mestres Sete" possuem maior número de legionários pela máxima necessidade de embate que existe no Reino.
Todos os “Mestres” tem por obrigação a expansão de seus Reinos. Cada espaço do plano astral deve ser modelado de acordo com os impulsos da Vossa Santidade Maioral. Os “Mestres” são potencializadores e organizadores dessa expansão. Entendemos que expandindo os Reinos, crescem o número de passagens entre os dois mundos" e o despertar das chamas aprisionadas. Quando essa expansão atinge o número construtivo "49", ocorre a necessidade de um “Rei” zelar desse espaço. Um dos “Mestres” é eleito pelos “Poderosos Mortos" e as características nominais são elevadas ao nobre título de “Rei”. Seguindo o exemplo descrito, o “Exu de Encruzilhada da Kalunga”, evolui para “Tranca Rua da Encruzilhada da Kalunga”, “Tranca Rua das Sete Encruzilhadas da Kalunga – Mestre Sete” e “Exu Rei das Sete Encruzilhadas da Kalunga”. Assim funciona a verdadeira hierarquia de Exu e Pombagira dentro da gnose da Quimbanda Brasileira.


A Imagem de Maioral






Dentro dos costumes e tradições da Quimbanda, a grande maioria dos Templos/ Terreiros usa uma imagem muito similar à Deusa “Baphomet” para representar o “Imperador Maioral”. Essa forma de idolatria também ocorreu por conta do sincretismo religioso ocorrido na formação do culto, principalmente pela grande influência das obras literárias do “mago cristão” Eliphas Levi, criador da imagem. Dentre suas obras, o livro “Dogma e Ritual da Alta Magia” foi um dos responsáveis pela profanação da “Senhora da Terra” e pela propagação de um dos maiores erros no círculo ocultista. Transcreveremos um trecho dessa obra que expõem sobre Baphomet:
“Figura panteística e mágica do Absoluto. O facho colocado entre os dois chifres representa a inteligência equilibrante do ternário; a cabeça de bode, cabeça sintética, que reúne alguns caracteres do cão, do touro e do burro, representa a responsabilidade só da matéria e a expiação, nos corpos, dos pecados corporais. As mãos são humanas para mostrar a santidade do trabalho; fazem o sinal do esoterismo em cima e em baixo, para recomendar o mistério aos iniciados e mostram dois crescentes lunares, um branco que está em cima, o outro preto que está em baixo, para explicar as relações do bem e do mal, da misericórdia e da justiça. A parte baixa do corpo está coberta, imagem dos mistérios da geração universal, expressa somente pelo símbolo do caduceu. O ventre do bode é escamado e deve ser colorido em verde; o semicírculo que está em cima deve ser azul; as pernas, que sobem até o peito devem ser de diversas cores. O bode tem peito de mulher e, assim só traz da humanidade os sinais da maternidade e do trabalho, isto é, os sinais redentores. Na sua fronte e em baixo do facho, vemos o signo do microcosmo ou pentagrama de ponta para cima, símbolo da inteligência humana, que colocado assim, em baixo do facho, faz da chama deste uma imagem da revelação divina. Este panteus deve ter por assento um cubo, e para estrado quer uma bola só, quer uma bola e um escabelo triangular” Levi, Eliphas. Dogma e Ritual da Alta Magia, Editora Madras - 2008.”
Segundo essa descrição, Baphomet trata-se de uma figura filosófica, hermafrodita, cuja principal função é manter o equilíbrio entre os polos energéticos (+ e -) e promover uma suposta redenção motivada por impulsos de misericórdia e justiça. O ídolo Baphomet foi concebido por esses estudiosos cristitas como sendo um conjunto de fagulhas das mais diversas culturas antigas que capacitaram o entendimento da geração, polaridade, dualidade, entre tantos outros significados.
Baphomet”, segundo nossos entendimentos, não é a figura panteística do "Absoluto”, tampouco, algum esboço representativo da santidade do homem. Acreditamos que a palavra “Baphomet” é junção das palavras gregas “Baphe-Metra” (Bxen untega), que corresponde à “Mãe tingida/sangrenta”, “A tintura da Mãe” ou ainda “o batismo da Mãe” onde ocorre o encontro com a face da Deusa Sinistra. O nome, apesar de filosófico, representa o “Grande Útero Negro” que gerou e capacitou forças para guerrear contra a inércia das religiões estigmatizadas.
Para desmistificar algumas ideias, vamos expor um conjunto de conceitos que nos fazem acreditar que “Baphomet ou Bafomé” não é o “Antigo deus templário” que motivou autoridades católicas e reis perseguirem os “cavaleiros de cristo” ou “uma corrupção do nome Maomé” como infelizes ocultistas persistem perpetuando em escritos sem nexo.
Visivelmente, a imagem de Baphomet é carregada de significados esotéricos. Tais sinais são tão amplos que dão margem à diversas interpretações, por tal motivo, cada corrente filosófica enxerga a imagem com atributos diferentes. Associam-na ao deus Pan (panteão grego), ao Vigilante Azazel (hebreu), ao demônio Behemot e ao próprio Satanás cristão. Alguns alegam que a imagem é o puro “Akasha” (primeiro espírito), outros que representa o “Batismo da Sabedoria” (corrupção da expressão grega “Baphes-Metis”) ou “Sophia” e os mais infortunados alegam ainda que o nome é uma corrupção de “Abufihamat” (ou ainda Bufihimat, como pronunciado na Espanha), expressão moura para “Pai do Entendimento" ou "Cabeça do Conhecimento”. Dezenas de teorias enxertam a massa formadora do ícone gnóstico mais corrompido da história da filosofia esotérica.
Como dito anteriormente, o autor e ocultista cristão Eliphas Levi, que outrora se tratava de um abade com impulsos ao “desconhecido”, moldou através dos conceitos preexistentes uma figura filosófica repleta de significados e nomeou-a como “O bode Baphomet ou o Bode de Sabbath”, uma figura visivelmente corrompida e repleta de influências demoníacas. Portanto, o ídolo Baphomet foi construído nas pranchetas de um abade que fundiu dezenas de conceitos e culturas para desenhá-lo.
A imagem de Baphomet, carregada de traços demoníacos e simbologias não cristãs, foi o vaso perfeito para a habitação do “inimigo de Deus”. A Igreja cristã fundiu os dois conceitos e criou uma forma física para propagar o medo que sua doutrina necessita para manter-se viva. A imagem de Baphomet torna-se a imagem de Satã/ Lúcifer, cultuado pelos bruxos em suas ritualísticas de “Sabbat Negro", onde o deus adorado era o "bode negro”, também conhecido como “Mestre Leonardo”.
No processo formador da Quimbanda, a imagem de Levi chegou em terras brasileiras concomitantemente aos demais livros inquisitórios de demonologia. Como a imagem é forte e expressiva, ostentando a cabeça de um bode (animal repudiado), não tardou para ser proliferada como a imagem do próprio demônio ou ainda a imagem que retratava o demônio e suas legiões. Dessa forma, foi a imagem usada para representar as forças de Maioral e a amplitude de seus poderes dentro do culto da Quimbanda. Esse conhecimento é fundamental para a compreensão da imagem de Maioral.
Evidentemente que fica uma lacuna na mente dos adeptos: “Se a imagem de Maioral foi o desenho de um abade esotérico corrompido pela Igreja Católica, a mesma torna-se uma figura desprovida de poder e verdade dentro do culto da Quimbanda. Como seria a imagem de Maioral?”
Para sanarmos essa lacuna, temos de readaptar nosso entendimento acerca da imagem, bem como os fundamentos que a mesma carrega. Segundo nossa Tradição V.S. Maioral é um Ser amorfo, portanto, todas as imagens ou gravuras são apenas formas representativas que facilitam o processo evolutivo. Outro ponto importante é que independente da imagem ter sido fruto da imaginação de um ser humano, a mesma adquiriu um poder energético condensado por centenas de anos de egrégora. Cabe aos dirigentes espirituais entenderem e adaptarem novos conceitos para que a imagem possa ser usada nos cultos.
Ao observarmos a imagem de Baphomet, encontraremos alguns aspectos deveras importantes para associá-la ao culto de Maioral. A imagem possui:
Asas: Representa o elemento ar, associado ao “Maioral Beelzebuth”. As asas são a expressão de liberdade que quebram as barreiras mentais.
Escamas: Representa o elemento água, associado ao “Maioral Leviathan”. As escamas são intransponíveis armaduras que garantem a continuidade do astral amorfo, ou seja, a libertação de tudo que escraviza no astral.
Cascos: Representa o elemento terra, associado ao “Maioral Belial”. Os cascos são fortes e as fendas garantem o equilíbrio sob qualquer circunstância. Esse é o símbolo da força necessária para destruir as correntes aprisionadoras físicas, os vícios, as falhas, o ego, o humanismo, a necessidade de autoafirmação, dentre outros comportamentos aprisionadores.
Tocha/Archote: Representa o elemento fogo, associado ao “Maioral Lúcifer”. Esse elemento é responsável pela busca da iluminação interior e espiritual. É o fogo que transforma nossa “Pedra Filosofal” no “Diamante Negro”. É o sacrifício que logra êxito nas jornadas espirituais.
Os quatro Maiorais são os formadores do Grande Dragão Negro e suas representações, bem como seus poderes estão simbolizados na imagem.
A cabeça do bode indica uma relação direta com a bestialidade, com o caos, instintos animais, agressivos que o homem tenta sufocar e as Leis aprisionar. É uma forma de entender que apesar da aparência, somos animais e devemos saciar nossos instintos. A tocha sob a cabeça lembra-nos que tais instintos devem ser controlados e manipulados segundo a necessidade e vontade. Os cornos também são uma expressão do lado animal e da dualidade energética (pela força de penetração e por sua abertura em forma de receptáculo) que todos os adeptos possuem. Indicam a ancestralidade, o poder, a coroa e a proteção ao archote de Lúcifer, afinal, “é a luz que cega os profanos”. Os chifres do bode são um símbolo de sexualidade e procriação, mostrando a ligação com a Terra e todas as disputas que ocorrem nela. Sob uma visão mais esotérica, tais chifres são símbolos relacionados aos poderes infernais, afinal, representam o aspecto lunar e não solar como os do carneiro. Resumimos toda essa explanação em uma frase dita pelo grandioso Exu Pantera Negra: “Abra os olhos, seja corajoso e se torne um bode preto!”
Sob tal entendimento, apesar de Maioral possuir a chama de Lúcifer em sua essência, protege-a de tolos profanos. Seus chifres representam que na Terra é Imperador e possui poderes receptivos e dinâmicos, masculinos e femininos, positivos e negativos, construindo ou destruindo conforme a necessidade. Não se trata de um Ser andrógino, mas de um Ser que possui domínio sob ambas as energias.
Diversas culturas pagãs acreditavam que o bode era um animal divino e carregado de forças de libido e procriação, cujo sangue possui o poder de "temperar o ferro" em associação ao próprio fogo. Todavia, a figura de animal expiatório, iniciada através das religiões de Israel que concentravam a redenção de seus pecados simbolicamente na cabeça desses animais. A religião cristita fez do bode a própria figura do "diabo”, retirando desse animal sagrado o direito de ser divino e repleto de energias de procriação.
"... em ambos os casos, contudo, é importante salientar que tanto o carneiro quanto o bode são claros símbolos de divindades solares, sendo que no primeiro tem-se a exaltação da divindade, enquanto que no segundo a expiação e morte do deus.” Chevalier, Alain Jean Geerbrant. Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora. Rio de Janeiro, 2000); p. 134
A imagem apresenta em cima do chacra Ajna, que na nossa tradição chama-se “Abaddon”. Esse centro energético está diretamente ligado ao Senhor Astaroth e no mergulho para a mente inconsciente que possui sombrios “vales”, a fim de encontramos respostas para nossos caminhos evolutivos. Na imagem tradicional, um pentagrama cósmico representa esse centro energético, todavia, segundo nosso entendimento, apenas o pentagrama invertido pode representar esse caminho, pois a ponta que representa o espírito deve estar voltada para o submundo (para baixo), local de onde habita a escuridão em nossos inconscientes. Dessa forma, existirá o autoconhecimento e a força de Maioral terá o poder de libertação sobre seus escolhidos através da unificação das forças elementares, assim como reza as antigas tradições dos deuses corníferos.
Os braços musculosos mostram o lado guerreiro, forte e onipotente, portador dos garfos (tridentes) eternos no culto da Quimbanda e as mãos, posicionadas para cima e para baixo são símbolos da equação: “O que está encima e o que está embaixo são mistérios que só os iniciados enxergarão!", todavia, como apenas dois dedos apontam o caminho (Luz ou Escravidão), concluímos que o caminho oculto deve ser preservado. Não se trata de um símbolo de equilíbrio, trata-se do mistério da escalada do próprio autoconhecimento.
Os seios na imagem de Maioral são apenas representações do “oceano primordial” e honrarias ao ser que deu origem à sagrada linhagem. Também mostram que foi criado como forma de embate aos dogmas e comportamentos preestabelecidos, um Ser que protege seus escolhidos eternamente.
Na barriga da imagem encontramos um dos elementos mais importantes da mesma: “O falo emblemático” denominado como “Caduceu de Hermes/Mercúrio". O falo aparece de forma peculiar, afinal, salta de um manto que cobre as pernas do ídolo. O mesmo atravessa um “semicírculo” que divide a imagem. Entendemos que esse semicírculo represente as constelações. O falo fecunda e age como um totem para forças além-matéria, e é como um cetro de poder regendo o equilíbrio dinâmico de duas forças. Segundo a tradição esotérica que seguimos e entendemos como correta (não desmerecendo as demais), representa a ascensão do Dragão Cego carregando Lilith através dos centros energéticos do corpo para promover o reencontro com Samael/Satã e receber as sagradas sementes. É um símbolo para despertar uma forma de serpente/dragão, profanamente denominada de “Kundalini” e gerar uma poderosa descarga energética no microcosmo que refletirá no macrocosmo.
Essa imagem possui duas cobras entrelaçadas que posicionam suas cabeças como se estivessem aptas à guerra. Essas duas serpentes possuem uma grande gama de aplicações, todavia, acreditamos que no culto ao Senhor Maioral, representem as duas polaridades em embate, comunhão e procriação. Além disso, também comungamos a ideia de que representem a unidade em um mesmo corpo de Luz e Trevas (base de toda nossa crença). De forma esotérica, junto com o falo (eixo central) representa o desenho da própria Otz Daath (Árvore da Morte). Outro conceito interessante é associar as duas serpentes com as correntes lunares e solares, denominadas de Obe Od (veneno e antídoto).. :
O manto cobre aquilo que não deve ser visto, que ainda se forma ou que nunca existiu. Cobre as pernas entrecruzadas de Maioral, numa espécie de posição autoritária, assentado sobre a Terra donde rege seus reinos, povos e legiões, assim como seus escravos.
Sob esses prismas, a imagem de Baphomet, adaptada ao culto de Quimbanda para representar o Senhor Maioral torna-se real e verdadeira. Alguns enxergam a imagem como representação do Senhor Maioral Beelzebuth. Essa visão também é válida, afinal, a imagem contêm a essência desse “Ser” em sua formação.

Quimbanda audiobook parte 10











Exu e o Símbolo fálico

Ao longo da era paleolítica (2.500 a.C.), os homens erigiram monumentos em pedra lascada e, dentre tais, encontram-se os primeiros monumentos fálicos (adoração). Tais monumentos retratavam a virilidade, força e adoração, haja vista que todo processo de reprodução era dependente do espírito que mantinha o falo em posição ereta. O falo representa a energia dinâmica e ativa que capacita a condução da vida produzida dentro da bolsa escrotal.
Importante salientar que o culto fálico não é patriarcal, haja vista que os totens sempre exibem falos eretos e aptos à copular. Portanto, o falo depende de uma contraparte feminina pronta à receber o sêmen e iniciar a jornada de criação.
No nosso sistema, Exu representa o poder dinâmico. Tudo que é construído no mundo sobrenatural e no mundo natural está relacionado com a ação de Exu. Sem a mobilidade desse Rei na vida dos seres humanos tudo ficaria estagnado, preso e sem circulação. Segundo a cultura Nagô, um indivíduo sem Esú não existiria de forma individualizada, ou seja, os seres não poderiam se desenvolver, evoluir, adquirir libertação e principalmente o direito de seguir pela senda que desejasse.
Portanto, cada pessoa tem seu Exu; um mestre designado para acompanhar a senda evolutiva individual, cujo poder está dentro de tudo que está no âmbito material e espiritual. Dessa forma, sendo um mentor e executor, cabe a Exu o direcionamento dos seus filhos, abrindo ou fechando caminhos, favorecendo, mobilizando e corroborando na evolução.
Em sua essência, Exu é o portador mítico do sêmen e da forma uterina ancestral e sua força dinâmica sintetiza as uniões. Portador da interação rege as atividades sexuais e possui como principal símbolo de poder o "Ogo", a forma fálica em forma de bastão que carrega em sua mão como cetro de poder e as cabaças pequenas que representam os testículos. O 'Ogo” simboliza um pênis ereto, pronto para ter relações e apto para descarregar o sêmen que fecundará os caminhos. O pênis também é chamado de “Okane” pelos adeptos dos cultos afros.
Muito provavelmente, os primeiros cristitas que tiveram contato com tal símbolo fálico ficaram horrorizados ao deparar-se com o culto ao falo ereto. Esse foi um dos principais motivos geradores da associação de Esú com as repudiadas formas demoníacas cristas que corromperam lindos seres como “Priapo” e “Pan”.
Na Quimbanda Brasileira, os Exus que se manifestam através da incorporação não costumam fazer uso dessa ferramenta, pois a mesma pertence ao culto de Èsú Orisá, todavia, nos assentamentos a forma fálica é usada. A exaltação máxima ao culto fálico na Quimbanda Brasileira ocorre através do simbolismo nos ritos de sacrifício, onde o “Ogo" assume a forma de “Obé” (faca ritualística) e o sêmen é o próprio sangue (Kiday). Ao imolar o pescoço de um animal, o “Obé” reproduz o movimento contínuo do pênis adentrando na vagina e ao jorrar o sangue, atinge-se o êxtase da relação e a própria fecundação.
No culto de Èsú, outras representações também simbolizam o totem fálico. A flauta, o cachimbo e o próprio charuto assumem conotações sexuais. São instrumentos de deslocação que absorvem e expulsam cujas funções são a descendência (Mestre do passado, presente e futuro) e invocar a reprodução (que não pode ser confundida com procriação).


sábado, 2 de março de 2019

Quimbanda audiobook parte 09









Vossa Majestade Maioral e Exu

O que será exposto sobre essa relação não é algo com embasamento histórico, pois foram entendimentos e sabedorias transmitidos pelos espíritos a alguns adeptos de nossa Tradição. É uma forma das pessoas entenderem que nem todos os espíritos que se apresentam como 'Exu' fazem parte da corrente de Quimbanda.
O nome Exu tornou-se popular pela associação que o mesmo tinha com o Diabo. O culto ao diabo Exu, certo ou errado foi se proliferando dentro das casas de religião e arrebanhando seguidores em todo território brasileiro. As pessoas foram criando campos energéticos a partir dos ensinamentos africanos, indígenas e europeus que funcionavam como grandes portais abertos, como estradas por onde passam centenas de espíritos. A influência de V.S. Maioral cegou centenas de pessoas sobre o risco que essas passagens trariam para o sistema vigente e fez com que alguns espíritos escolhidos começassem a transitar pelas mesmas estradas que os espíritos imundos, haja vista que jamais poderiam ver ou sentir a essência que os mesmos carregavam. Em contato com os humanos, os escolhidos ocultos sob o pseudônimo de Exu, tiveram a missão de expandir as portas de entrada e arrebanhar espíritos afins para comporem as Legiões de V.S. Induziram os homens na introdução dos sigilos, chamados de ‘Pontos Riscados', criaram formas nominativas que os separavam em grupos, resgataram a ancestralidade desperta, enfim, expandiram o Reino de Maioral.
Quando V.S. desejou, começou a separar esses espíritos por afinidade. Maioral enxergou na ancestralidade africana a força apropriada para edificar um culto próprio. Dessa forma, aproveitando-se de todo contexto histórico e político que essa terra vivia, nasceu, de um nome incompreendido, uma das religiões mais temidas da Terra: A Quimbanda. Quimbanda continua sendo o Sacerdote de Cura, mas essa cura não é para doenças físicas e espirituais, é a cura da cegueira e domínio do Ego, é a cura para uma doença que se chama escravidão.
Maioral não desejou que fosse edificada uma doutrina, pois o culto estava em expansão e mutação. Dessa maneira, foi se desenvolvendo de formas diversas dentro das casas de religião e aos poucos alguns fundamentos mostraram-se comuns a todos os adeptos. Maioral deu e dá liberdade de culto aos escolhidos, pois suas práticas, por vezes caóticas, permitem a aproximação de outras correntes, qualidades de espírito e egrégoras. A Quimbanda absorveu e continua a absorver a magia, a feitiçaria e a necromancia. E a religião do movimento, verdadeira e única religião de Exu.
O caminho dos espíritos para a Legião de Exu
Como dito anteriormente, quando um ser humano desencarna continua com certos traços de consciência e a Quimbanda Brasileira, segundo nossa Tradição, os classifica da seguinte maneira:

1. Espíritos transitórios;
2. Espíritos vagantes e perdidos;
3. Espíritos revoltados;
4. Espíritos obsessores;
5. Espíritos Escolhidos.

Os espíritos Transitórios são assíduos seguidores de suas escravistas formações religiosas que, ao desencarnarem, não carregaram consigo dúvidas espirituais. As possíveis decepções e frustrações que tiveram em vida não são fortes o suficiente para acorrentá-los. Quando partem da vida material estão no estado hipnótico adequado para continuarem suas jornadas na roda das reencarnações. Geralmente são alicerces familiares e deixam na Terra sentimentos de saudade e nostalgia. São inertes, passivos e tão cegos espiritualmente que são desprezados pelos espíritos despertos.
Os espíritos Vagantes e Perdidos são os que desencarnam carregados de frustrações, traumas e decepções tão agudas que os aprisionam em labirintos psíquicos fortíssimos. Vagam pelas encruzilhadas em busca de respostas e por vezes não entendem que transpuseram o invólucro material. Vivem no plano astral em estados apáticos e submissos e não são objeto de desejo das correntes espirituais mais densas, porém, são usados para determinados fins obscuros. Permanecem neste estágio por muito tempo, até encontrarem a força interior que os ilumine para buscarem apoio dos Povos encaminhadores.
Os espíritos Revoltados são os que partiram da matéria com algum tipo de revolta. Não se obscurecem completamente, mas são atraídos por correntes de espíritos justiceiros. Como ainda possuem resquícios de suas formações religiosas e morais, são analisados pelo Povo de Exu e, quando desejados, passam integrar alguma Legião. Quando indesejados significa que são fracos e essa revolta é superficial, então são jogados pelo Cruzeiro das Almas para algum plano socorrista da 'Falsa Luz'.
Os espíritos Obsessores são os que partiram da matéria com fortes impulsos de vingança. Não se conformam com os acontecimentos e procuram de todas as formas concluir os impulsos que tinham enquanto na matéria estiveram. São ferozes, rebeldes e toda formação religiosa e moral que possuíam enquanto na matéria estiveram, são dragadas pelo obscurecimento de seus corpos astrais. Quando possuem o fogo obscuro na essência, tornam-se objeto de desejo das correntes de Exu, todavia, quando foi obscurecido apenas pelas falhas comportamentais e descontrole emocional, são facilmente integrados a outras falanges de espíritos imundos. Grande parte desses espíritos se tornam Exus e Pombagiras que trabalham nas correntes demiúrgicas.
Os Espíritos Escolhidos são aqueles cuja espiritualidade é latente como uma chama incessante, são pessoas direcionadas aos estudos esotéricos profundos. Incansáveis buscadores, quando atraídos pelas correntes de Exu, tornam-se objeto de zelo e honra pela corrente. Suas jornadas materiais não são fáceis, haja vista que se tornam perigosas armas de embate ao Sistema Regente, porém, não se curvam a nenhuma estrutura estagnada. Quando partem da matéria são recebidos com Glórias pelas Correntes de Exu e direcionados aos Campos Magnéticos onde deixaram seus lastros.
Os espíritos Escolhidos, Revoltados e os Obsessores são a matéria prima que compõem as Legiões de Exu e Pombagira. Após serem arrebanhados pelas legiões, são doutrinados e treinados pelos Chefes do Povo e, após muito estudo e aprendizados evoluem e podem compor a espiritualidade de outro ser humano. São atraídos aos Reinos segundo as vibrações que carregam no astral, portanto, nos planos espirituais, a Lei de Atração é fundamental para a formação dos Reinos de Exu.

Significado do termo “Catiço”

Termo “Catiço” pode ser entendido como um sinônimo de esperteza. Numa análise mais profunda, “Catiço” também é um termo popular para definir tanto crianças hiperativas, quanto pessoas com má índole. “Catiça” é outra palavra de mesma raiz que pode ajudar esclarecer outros aspectos, afinal, seu significado assemelha-se a “mandinga”, “mal-olhado” e azar. Portanto, espíritos “Catiços” são os desencarnados espertos, rápidos, ativos, com doçura e maldade quando necessário e que possuem a energia da mandinga, do feitiço, da boa sorte e do azar.
Os Exus-Egúns ou Exus-Catiços, manifestam-se através de evocações e invocações. Quando invocados dos planos astrais, podem incorporar em determinadas pessoas que possuem faculdades despertas somadas a um alto grau perceptivo. Tais pessoas são chamadas de “médiuns”, intermediadores que regulam a descarga energética entre suas matérias densas e o corpo espiritual de seres falecidos.

Vossa Senhoria Maioral (parte I)







O Conceito Maioral

Dentro da Quimbanda, como dito em textos anteriores, a Arte desenvolve-se através da gnose encontrada no culto de Exu e Pombagira. Assim como em todas as vertentes religiosas, existe a concepção de um Ser Supremo, algo que está além de compreensões exotéricas e banalizadas. Tal ser é chamado de Maioral, ou ainda, o Grande Dragão Negro.
Como dito anteriormente, a Quimbanda Brasileira foi fruto da junção de três vertentes principais: Africana, Europeia e Indígena Nativa e, tais pilares construtivos, encontraram similaridades que possibilitaram a junção e criação de novos seres. Antigos livros de Quimbanda associam-na como lado reverso da Umbanda (outra religião tipicamente Brasileira), alegando que os Exus são seres em via evolucionista que policiam as Leis Universais aplicando as ditas Leis Maiores sem parâmetros morais de bem ou mal. Sob uma classificação jocosa é classificado como "lixeiro da imundície humana”, cuja função é recolher o excremento energético humano. Outros alegam que Exu, por ser um espírito admitido nas Trevas, deve ser desperto e trabalhar pelo bem da humanidade, caso contrário é apenas um ser atrasado. Essa concepção de que a Quimbanda nasceu nas sombras da Umbanda foi uma forma de segregar o trabalho desenvolvido pelos Exus e Pombagiras institucionalizando-os como personificações do “mal” e demonstrando claramente a nítida divisão cristã entre o “bem e o mal”, “Direita e Esquerda”, entre seres bons e curadores e os maléficos Exus-Diabos.
“Há que se lembrar que desde a idade média escolheu-se o Diabo como significante do mal e o signo que possibilitaria a interdição a partir do universo cultural e religioso. No universo simbólico, imaginário e cultural dos negros e dos índios não havia uma entidade que representasse o mal em sua totalidade. Essa aculturação só foi possível pelas adaptações e distorções ocorridas no arcabouço original (FERRO, Marc - História das Colonizações. Companhia das letras, São Paulo, 1996.).”
Entre os séculos XIV e XVIII a Igreja Católica (que assemelhava-se ao próprio Estado), no afã de destruir todas as manifestações religiosas hereges contrárias ao cristianismo, instituíram uma intensa perseguição denominada “Santa Inquisição”. Esse período foi uma "terra fértil” para o aparecimento de livros e manuscritos descrevendo minuciosamente o “Reino de Satanás”. Tais livros, denominados "Grimórios” (livros de encantamentos) exibiam uma rica hierarquia dos demônios, além das transcrições de seus poderes, legiões e amplitude de ação. Podemos citar o "Grimorium Verum” (Grimório da Verdade), o "Clavícula de Salomão", o "Grand Grimorium”, o “Manual do Papa Leão” (“Enchiridion Leonis Papae”), entre outras obras que ilustravam pactos demoníacos e missas diabólicas.
"Toda essa carga literária aportou nas terras brasileiras em meados do século XVI. Vindos através dos padres catequizadores e senhores da alta classe Portuguesa (e Espanhola), tais “livros inquisitórios” foram instrumentos de catequização e punição. Os povos nativos, os negros escravizados e os colonizadores receberam até o fim do século XVIII a educação religiosa que abordava as facetas do “Diabo Cristão e suas Hostes” provindas de tais obras de demonologia. Dessa forma, assentaram-se no inconsciente e consciente coletivo (através das piores maneiras) essas informações, além das já enraizadas como a luxúria, a maldade, a danação e o sexo.
A formação do conceito Maioral deu-se pelo sincretismo ocorrido entre os "Exus-Egúns” e os demônios listados como subalternos dos Maiorais do inferno. Esse sincretismo provavelmente foi iniciado pelos próprios padres católicos, haja vista que um dos métodos mais eficazes de destruírem o sagrado é a distorção do significado original do culto. Ao longo dos anos, ao invés dessa distorção ser sanada, foi absorvida e aplicada dentro do âmago do culto da Umbanda, que foi “um lago de águas paradas”, habitat perfeito para alguns descreverem as legiões de Exu as sincretizando com divindades pagãs demonizadas.
Muitas contradições ainda ocorrem dentro da Quimbanda Brasileira pelo fato de confundirem-na com o culto de “Kimbanda” e pelo processo de formação ainda ser recente e não existir um consenso entre os adeptos. As distorções fizeram do Exu um ser demonizado e classificado por analogia aos demônios descritos segundo os grimórios medievais.
Maioral aparece como um termo usado para designar Seres Espirituais que regem as legiões de Exus e Pombagiras. Dentro do processo de cristianização de Oxalá e os demais orixás africanos, a dualidade existente no cristianismo, entendida como o “Bem e o Mal” fez com que Exu assumisse o “Trono das Trevas” e fosse correlacionado à tríade maligna descrita nos antigos Grimórios composta por Lúcifer, Beelzebuth e Astaroth.
O primeiro passo desse sincretismo umbandista foi classificar três Exus que assumiriam os "Tronos Maiorais”. Lúcifer foi correlacionado com “Exu Lúcifer”, Beelzebuth (Beelzebub) com “Exu Mor" e Astaroth (Ashtaroth) com “Exu Rei das Sete Encruzilhadas”. A partir dessa tríade, os demais Exus foram classificados e renomeados segundo a demonologia dos antigos grimórios.
“Diabo Maioral, ou Exu Sombra, que só raramente se manifesta no transe ritual. Ele tem como generais: Exu Marabô ou diabo Put Satanaika, Exu Mangueira ou diabo Agalieraps, Exu-Mor ou diabo Belzebu, Exu Rei das Sete Encruzilhadas ou diabo Astaroth, Exu Tranca Rua ou diabo Tarchimache, Exu Veludo ou diabo Sagathana, Exu Tiriri ou diabo Fleuruty, Exu dos Rios ou diabo Nesbiros e Exu Calunga ou diabo Syrach. Sob as ordens destes e comandando outros mais estão: Exu Ventania ou diabo Baechard, Exu Quebra Galho ou diabo Frismost, Exu das Sete Cruzes ou diabo Merifild, Exu Tronqueira ou diabo Clistheret, Exu das Sete Poeiras ou diabo Silcharde, Exu Gira Mundo ou diabo Segal, Exu das Matas ou diabo Hicpacth, Exu das Pedras ou diabo Humots, Exu dos Cemitérios ou diabo Frucissière, Exu Morcego ou diabo Guland, Exu das Sete Portas ou diabo Sugat, Exu da Pedra Negra ou diabo Claunech, Exu da Capa Preta ou diabo Musigin, Exu Marabá ou diabo Huictogaras, e Exu-Mulher, Exu Pombagira, simplesmente Pombagira ou diabo Klepoth. Mas há também os exus que trabalham sob as ordens do orixá Omulu, o senhor dos cemitérios, e seus ajudantes Exu Caveira ou diabo Sergulath e Exu da Meia-Noite ou diabo Hael, cujos nomes mais conhecidos são Exu Tata Caveira (Proculo), Exu Brasa (Haristum) Exu Mirim (Serguth), Exu Pemba (Brulefer) e Exu Pagão ou diabo Bucons.” (Exu, Aluizio Fontennelle, editora espiritualista, 1952.)
Após essa descrição demoníaca, tudo que foi publicado posteriormente absorveu esse contexto. Muitos livros foram colocados no mercado corroborando cada vez mais com essas associações. Com o movimento “Neo-Umbanda” e “Umbanda Esotérica”, essas classificações deixaram de ser aplicadas e aos poucos Exu deixou de ser demonizado e acabou sendo humanizado.

Nossa visão

A "Quimbanda Brasileira” é uma forma de culto diferenciada. Primeiramente, essa classificação demoníaca baseada em grimórios medievais não é base doutrinária adequada para nosso culto de Exu. Sob nosso entendimento, Maioral é um grande Portal composto por forças que estão além da compreensão profana. Maioral é a expressão máxima da unificação de todas as culturas e de todos os Reinos, Legiões e Povos da Quimbanda. Maioral, ou o Grande Dragão Negro, é a antítese de todas as religiões que acorrentam e submetem os seres humanos aos dogmas comportamentais, ou seja, tudo que é tido como tabu ou pecado não faz parte dessa energia. Maioral é o buraco negro que suga as lágrimas do medo e transforma-as em energia e vitalidade. Maioral é o grande trono que está na escuridão de nossos subconscientes, habitando nas nossas “feridas” e traumas. Maioral acorrenta e liberta segundo nossa força de buscar o que está além dos nossos sentidos, Maioral é o Reino dos antigos deuses demonizados e vencidos pela cegueira humana, cuja principal função é iluminar a jornada daqueles que se atrevem ajoelhar-se diante sua Luz. Maioral é a força que se rebelou quando o homem foi preso nos invólucros materiais (corpo físico), aquele que deu ao homem o direito de aprender e apreciar as artes, literatura, ciência, dança, como também, a guerra e a destruição. Maioral é a quintessência de muitos seres unificados que lutam para extinguir as formas de aprisionamento da psique humana dos que o buscam, como o ódio, a paixão, a ilusão, a soberba material, a cobiça desenfreada e a luxúria, todavia, alimenta as fornalhas qliphóticas que incendeiam a alma dos moribundos cegos e limitados. De tal forma, não podemos limitar Maioral apenas a Lúcifer, Beelzebuth e Astaroth como fazem os profanos. Maioral são todos os antigos deuses fundidos na chama de Lúcifer!
Maioral agrupa em sua essência os quatro elementos formadores da estrutura cósmica: O fogo, a água, o ar e a terra, e é o próprio espírito amorfo que faz e destrói a forma dos demais elementos. Maioral é o perturbador do equilíbrio cósmico, gerador de todo movimento que não permite a estagnação e, consequentemente, a expansão do Reino de Escravidão. Maioral é a chama que ilumina o caminho, mas apenas aqueles que o buscam poderão ver essa luz.

Alfavaca

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